O Just in Time acabou



Será?

Será que o o mundo terá que voltar para a prancheta e observar que a até então intocável metodologia just in time não está sendo tão eficaz e que ser enxuto talvez não seja tão essencial como antes?

Além das questões relacionadas à pandemia, o mundo recebeu outro alerta sobre os perigos de sua forte dependência das cadeias de abastecimento globais no último mês de março. Um único navio encalhado no Canal de Suez interrompeu o tráfego em ambas as direções e o comércio internacional enfrentou um congestionamento monumental, com consequências potencialmente graves.

Nas últimas décadas, especialistas em gestão e empresas de consultoria têm defendido o sistema de produção just in time para limitar custos e aumentar os lucros.

Em vez de desperdiçar dinheiro estocando mercadorias extras em depósitos, as empresas usam da magia da Internet e da indústria de navegação global para reunir o que precisam e na hora em que precisam.

É claro que, como gestor de suprimentos, sempre vou buscar custo zero no meu armazém, juntamente com a adoção dessa ideia que trouxe nada menos que uma revolução para as principais indústrias – desde a fabricação de um EPI, passando pela fabricação de dispositivos médicos, varejo, produtos farmacêuticos e tantos outros mais.

Este cenário que tínhamos também rende um bom dinheiro para executivos corporativos e outros acionistas: o dinheiro que não é gasto enchendo os armazéns com peças e produtos desnecessários é, pelo menos em parte, dinheiro que pode ser dado aos acionistas na forma de dividendos.

Entendeu por que esta metodologia era e sempre foi, até o momento a opção numero 1?

No entanto, como em tudo na vida, enxergar somente por uma ótica pode trazer perigo para qualquer operação.

Uma dependência excessiva do sistema just in time ajuda a explicar como a equipe do maior hospital da Alemanha atendeu pacientes da Covid-19 durante a primeira onda da pandemia sem equipamentos de proteção adequados, como máscaras e aventais. Eles tinha a certeza que sua cadeia de suprimentos estaria apta a ser amparada pelo formato “pediu-chegou”.

Assim com diversas outras áreas, os sistemas de saúde - muitos sob o controle de empresas com fins lucrativos que respondem a acionistas - presumiram que poderiam depender da web e da indústria de transporte global para entregar o que precisavam em tempo real. Afinal, era o que vinha acontecendo até então. Mas o momento era outro e isso provou ser um erro de cálculo mortal.

Este mesmo apelo por uma só visão mostra a dependência da Amazon, que falhou em fornecer estoques adequados de máscaras e luvas para seus funcionários de depósito nos Estados Unidos nos primeiros meses da pandemia.

Jeff Bezzos, fundador da empresa, inclusive escreveu uma carta no início da pandemia mostrando exatamente que a própria empresa se ressentia de dificuldades nas entregas de máscaras para seu próprio time de operação, conforme trecho descrito abaixo.

“Fizemos pedidos de compra para milhões de máscaras faciais que queremos dar aos nossos funcionários e contratados que não podem trabalhar em casa, mas muito poucos desses pedidos foram atendidos”, declarou Jeff Bezos, em uma carta a todos funcionários em março passado. “As máscaras permanecem escassas em todo o mundo.”

Em um recente projeto, detalhei que minha expectativa seria termos armazéns com suas funções físicas de produtos preservados e que as empresas que só mantivessem seus estoques virtuais poderiam, de alguma forma, ser impactadas por qualquer movimento que o mercado fizesse. E isso vem se mostrando cada vez mais assertivo.

O fato é que não podemos trabalhar a área de suprimentos somente no âmbito virtual. Precisamos ter reservas de emergência, rodando obviamente todas as análise de riscos possíveis.

Um dos maiores professores de globalização mundial Ian Goldin, da Universidade de Oxford escreveu:

“À medida que nos tornamos mais interdependentes, ficamos ainda mais sujeitos às fragilidades que surgem, e elas são sempre imprevisíveis”. “Ninguém poderia prever um navio encalhado no meio do canal, assim como ninguém previu de onde viria a pandemia. Assim como não podemos prever o próximo ataque cibernético ou a próxima crise financeira, mas sabemos que isso vai acontecer. ”

Portanto, precisamos olhar nosso negócio, nossa empresa e nos perguntarmos:

Qual a melhor maneira de trabalhar nossos processos?

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